O ABSURDO QUE PASSEI NA MINHA HOMESTAY

O ABSURDO QUE PASSEI NA MINHA HOMESTAY

Vou explicar de uma forma detalhada o que tem acontecido por aqui em Brighton em relação à minha Homestay. Claro que não vou conseguir abranger todos os detalhes, mas não custa tentar.

No domingo (06/08), quando eu cheguei em Brighton, a Homestay (vamos chama-la de Mãe e a outra de Filha) Mãe e a Filha me receberam muito bem. Na mesma noite, Filha me fez várias perguntas para me conhecer melhor e descobrir mais sobre mim. No entanto, quando ela viu os remédios controlados devido ao meu tratamento da doença F41.2 (vale a pena pesquisar!), ela não ficou muito feliz e pediu explicações.

Quando cheguei em casa da escola na Segunda-feira (07/08), fui recebida com uma “reunião surpresa” na cozinha. Mãe estava desesperada e pediu para eu explicar diretamente à ela o que disse para Filha na noite anterior. Assim que terminei ela disse:”Não sei o que fazer pois nunca tive ‘alguém como você’ sob o teto da minha casa, apenas vi pessoas assim no hospital em que trabalho.”. Ela estava bem alterada e disse que ligaria imediatamente para a escola no ourto dia exigindo uma explicação do porque ela não foi informada antes que um aluno com essa doença iria morar lá. Ainda acrescentou: “A escola vasculhou criteriosamente a minha vida e a vida da Filha para nos aceitar. Porque não fizeram isso com a sua vida também antes de vir para minha casa?” Ainda completou que falou de mim para os amigos no trabalho e eles a alertaram para ter cuidado e ficar alerta. “Eu trabalho o dia todo, não tenho tempo para ficar de baba, ou saber o que você faz dentro do quarto.”

Eu chorei muito naquela hora porque me senti rejeitada, pedi desculpas pela situação e falei como me sentia em relação a isso. Ela disse que me deixaria ficar apenas um mês (eu paguei para ficar dois meses), ao invés de dois, para fazermos um teste. Os dias foram passando e eu tentava me aproximar da Mãe e Filha, mas percebia que elas tinham sempre receio de mim. Ajudava nas tarefas da casa, tentava ser a mais simpática possível, mesmo nos dias em que eu preferia ficar no quarto. Afinal, eu tinha esse direito, não tinha? Mãe se incomodava muito com o fato de alguém como eu estar morando lá e ninguém na casa para vigiar. Foi então que ela me disse que tinha um(uma) vizinho(a) para vigiar a rua e saber se eu havia saído da casa ou não. Achei aquilo um pouco demais.

Ela não fez questão de explicar regra alguma da casa, então fui perguntando o que tinha dúvidas. Só que o choque cultural é muito grande. No Brasil as coisas são muito diferentes daqui. Mesmo assim, ela sempre chamava minha atenção por cartas deixadas na porta do meu quarto. Acho que ela tinha medo que eu ficasse com raiva, a mordesse e ela fosse infectada pro algum vírus maligno ou virasse um zumbie. Toda manhã era uma surpresa nova. Claro que ia até ela explicar que eu não era obrigada a advinhar as regras da casa porque não fizeram questão de passar para mim e que a cultura aqui é totalmente nova para mim. Por exemplo, no Brasil se eu jogar papel higienico na privada. Fodeu. Aqui não existe lixo no banheiro, o papel deve ser jogado na privada. Ai vinha cartinha.”Você viu que enchi de carinhas felizes né? Pra você não entender que estou avisando gentilmente.” (olha o medo de virar zumbie) e eu sempre dizia: “Pode falar diretamente comigo. Sua casa, suas regras.”

Eu gostava de morar lá, o quarto era lindo, nunca sonhei que teria a oportunidade de dormir em um como aquele. Eu adorava estudar e ler lá dentro. Acredito que tinha o direito de ficar lá no “meu” quarto o tempo que quisesse, fazendo o que bem entendesse, lógico que dentro das regras da casa. Aquele era o único cômodo que eu podia ficar, não tinha mesa de estudos, então estudava na cama e caia no sono facilmente. Isso a incomodava demais. Sempre existia uma tensão na linguagem corporal dela e no jeito que me olhava quando conversava comigo. Eu não queria acreditar que alguém me trataria diferente assim. As coisas não melhoraram, ela atuava que estava me aceitando e eu fingia que acreditava. Eu tinha o laudo da psiquiatra comigo que comprovava minha condição de viajar mesmo sob tratamento. Além de que minha psiquiatra estava disponível 24h via WhatsApp para me dar suporte ou se precisassem falar com ela.

Eu faltei na escola 5 vezes: 2 por perder a hora, 1 por exame médico e 2 porque não consegui sair da cama. Aquele ambiente na casa estava tão tóxico que me afetou muito e ficou muito difícil não deixar os sintomas se tornarem sufocantes ao ponto de eu preferir ficar em casa, lendo ou dormindo, ao invés de sair da cama.

Foi então que a novela mexicana começou. Essa semana uma coisa na casa chamada “boiling”, que eu não sei como traduzir para o português, começou a dar defeito no Domingo. Estava para quebrar e ontem acabou quebrando de vez. Esse “boiling” é responsável por aquecer a casa e a água. Só que é muito caro, segundo ela, em torno de 5 mil. Enquanto estava quase quebrando, o banho foi reduzido a 5 minutos. Quando quebrou de vez, ela juntou A com B. Ela chegou do trabalho, como sempre fiz, fui até a cozinha conversar com ela sobre nosso dia. Só que ao invés do usual, quando cheguei na cozinha, a seguinte conversa se seguiu:

Mãe: Eu e Filha conseguimos lidar com o banho gelado até Quinta-feira da semana que vem (31/08), que é o dia que virão trocar para o “boiling” novo. Pra você não passar por isso, prefiro que vá para outro lugar.

Eu: Não me incomodo com o banho gelado, eu posso lidar com isso até Quinta-feira junto com vocês.

Mãe ficou alterada, apontou o dedo pra mim e disse: NÃO. Eu não quero você aqui mais. Eu quero você fora. Eu quero chegar do trabalho e entrar em um ambiente feliz e saudável. Você aqui, no quarto, não deixa mais a minha casa assim. É horrível chegar aqui e sentir um ambiente ruim. Eu já mandei e-mail para a escola durante meu trabalho para realocar você em outro lugar. Você tem até sexta-feira (hoje) para sair. Quanto mais rápido você for, mais rápido pego o dinheiro. Isso não está mais funcionando para mim.

Eu perdi o chão naquela hora, disse “Ok” e fui para o quarto, não consegui dormir e chorei até amanhecer. Me troquei, fui para a escola com a cara inchada e segui diretamente para o escritório responsável pela presença do aluno. Conversei com eles sobre meu tratamento e o porque das faltas, eles me deram apoio e orientações, pediram para eu tentar não deixar de ir e que tudo iria se resolver. Em seguida fui para a aula, os alunos e os professores me receberam com muita preocupação e me ajudaram a melhorar também. No intervalo fui para o escritório responsável pela a acomodação e perguntei se eles tinham visto o e-mail que a Mãe havia mandado sobre a água gelada. Eles confirmaram que tinham lido sobre o problema com o “boiling”.

Eu não queria voltar para aquela casa, ver aquela mulher depois do surto, a alteração de voz e a rejeição só porque eu tenho essa doença. Comecei a falar tudo o que havia acontecendo e comecei a chorar, não conseguia mais segurar. Eles me acalmaram e ouviram tudo que escrevi aqui no e-mail. Eu implorei para que não me deixassem voltar para aquela casa e imediatamente eles ligaram para a acomodação residencial da escola e disseram que eu seria encaminhada para o quarto de emergência porque todos os outros já estavam ocupados. Ainda acrescentaram que não estão felizes com essa família, pois dois outros alunos antes de mim também tiveram problemas com a Mãe.

Não tive tempo de parar para escrever e, nesse momento, estou fazendo isso aqui do quarto da acomodação residencial. Durante esse tempo, se não tiver vaga aqui, vão me direcionar a uma outra família. Eu implorei que não queria ficar com família alguma e eles me disseram que existem famílias que aceitam pessoas com a minha condição e não distratam dessa forma. A escola já teve e ainda tem alunos com a mesma doença que eu tenho, estudando e morando em homestay com famílias que entendem e os aceitam. Com familias que não são ignorantes.

O socorro prestado pela escola, o suporte diante do meu desespero, os olhos brilhando de empatia por causa do meu choro de angústia, a velocidade com que atenderam ao meu pedido de socorro para não voltar àquela casa depois da escola, foi espetacular. Eu aprendi com tudo isso que é necessário que a agência informe à escola quando o aluno estiver sobre tratamento relacionado a algum distúrbio mental, pois pode acontecer isso o que houve comigo e não quero que aconteça com mais ninguém. Por favor, lembre-se disso. Ninguém tem culpa, nem a escola, nem a agência, são eventos da vida que não conseguimos controlar. Quero ressaltar que houve uma preocupação da Mãe ao fato de eu ter que tomar banho gelado, mas isso não diminui a gravidade do que ela disse para mim e o absurdo que me fez passar.

Sempre mantenho minha psiquiatra atualizada, dos dias bons e dos ruins. Vejam o que ela falou em relação a essa situação:

hey, Lika

Eu não sei onde vou estar daqui uma semana. Tenho trauma de ir para outra família, mas agora só posso esperar.

Lika

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